Scott (James C.) - A Dominação e a Arte da Resistência

Discursos Ocultos.

Se a descodificação das relações de poder dependesse do pleno acesso ao discurso mais ou menos clandestino dos grupos de subordinados, os estudiosos do poder - quer ao longo da história, quer no presente - encontrar-se-iam num beco sem saída. Salva-nos o facto de os discursos ocultos serem normalmente expressos de modo aberto ainda que sob forma disfarçada. Nesta linha de pensamento, proponho que interpretemos os rumores, o falatório, as histórias tradicionais, as canções, os gestos, as anedotas e o teatro dos oprimidos como veículos que servem, entre outras coisas, para que os desvalidos insinuem uma crítica do poder ao mesmo tempo que se escondem por detrás  do anonimato ou de leituras inócuas  da sua conduta. Os mecanismos usados para disfarçar a insubordinação ideológica são, até certo ponto, análogos, segundo pude observar nas minhas próprias investigações, aos comportamentos que os camponeses e os escravos adoptam para disfarçar os esforços que se desenvolvem para contrariar a apropriação material do trabalho, da sua produção e da sua propriedade: por exemplo, a caça (ou pesca) furtiva, as tácticas dilatórias no trabalho, o furto, a dissimulação, a fuga. No seu conjunto, poderíamos chamar a estas formas de insubordinação a infrapolítica dos oprimidos. James C. Scott.

Apresentação de Fátima Sá.

Tradução de Pedro Serras Pereira.

Revisão de Andreia Baleiras.

Edição: Livraria Letra Livre.

Lisboa. 2013. 340 Págs. broch. € 20,00.